Dirigindo como ator, Wagner Moura defende personagens com devoção de um intérprete

Fonte: Eduardo Pereira – Omelete

Wagner Moura dirige Marighella, seu primeiro filme comandando as câmeras, como faria um ator. Ou melhor, como faria o grande ator que ele é: em defesa franca e livre de julgamentos das verdades de seus personagens. Optando por uma linguagem visual repleta de planos fechados e médios, priorizando sempre a captação das reações de seu elenco para com aquilo que os cerca, ele insere o espectador de forma pungente na resistência proposta pelo grupo armado contra a ditadura militar brasileira Aliança Libertadora Nacional (ALN). E, além de dramatizar dois períodos-chave na vida do personagem-título — o político, escritor e guerrilheiro comunista marxista-leninista brasileiro Carlos Marighella —, ainda se propõe a tecer uma ode universal à luta contra a opressão. Para isso, mistura fato e ficção, dispensa de forma confessa a objetividade e extrapola os moldes de uma simples cinebiografia para fazê-la um manifesto artístico pela liberdade.

No cerne dos 155 minutos que compõem o longa-metragem, pulsa um coração voltado à desconstrução de silenciamentos históricos. Marighella, o homem, foi por anos reduzido a uma caricatura unidimensional. “Terrorista”, “inimigo número um do regime militar”, “subversivo”, “extremista”; todos adjetivos atribuídos por décadas ao guerrilheiro, que visavam diminuir a complexidade de um corpo de trabalho político que foi muito além do combate à ditadura. Engajado desde os anos 1930 no ativismo democrático de esquerda, ele foi levado à prisão por diversas vezes, sim, mas não por ser um criminoso de carreira; sim por fazer oposição a figuras que historicamente ameaçaram, ou de fato violaram, as liberdades no país (do interventor militar Juracy Magalhães ao admirador confesso do fascismo italiano Getúlio Vargas). Após 1964, Marighella recorreu a táticas violentas contra a opressão militar que tomou poder no Brasil, mas não antes de ter atuado como deputado federal e ativista político para impedir que se consolidasse o golpe contra o presidente eleito João Goulart. Além disso, era um pai, um filho, um marido, um intelectual respeitado internacionalmente por figuras como o cineasta Jean-Luc Godard, e um patriota.

Assim, Marighella, o filme, busca usar o poder de influência do cinema para ampliar o escopo da percepção pública sobre seu personagem-título. Não se trata de lançar juízo de valor especificamente sobre as implicações morais e legais da luta armada pela democracia — até porque o guerrilheiro já recebeu anistia póstuma em 2012, em gesto oficial que reconheceu também seu brutal assassinato pelas mãos ensanguentadas da ditadura —, mas sobre quantificar o nível do sacrifício, da entrega e da convicção de homens e mulheres que se dispuseram a morrer pelo sonho de um Brasil livre da ditadura militar. Para isso, o roteiro escrito por Moura e Felipe Braga (Sintonia) se debruça sobre trechos da biografia Marighella – O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, do jornalista Mário Magalhães, ao mesmo tempo em que ficcionaliza personagens para reforçar essa temática.

Para isso, é fato que Moura trabalha com um maniqueísmo consciente na sua forma de retratar o embate da ALN com a ditadura militar e seus patronos norte-americanos. Quando escrevo que o diretor defende seus personagens como faria se os interpretasse, isso não se estende àqueles que são opressores. A eles, no que o filme claramente posiciona como reparação histórica contra aqueles que por décadas a manipularam, é reservado o papel de rasos e inescrupulosos vilões. Seus retratos estão à margem da complexidade e da capacidade de variância moral que caracteriza um ser humano, mas são imediatamente validados pela denúncia gráfica e por vezes desconfortável que o filme traz dos crimes do regime. A equação proposta é explícita: Carlos Marighella teve sua humanidade apagada dos livros de história por tratar no “olho por olho” a corrupção, os sequestros, os estupros, a tortura e os assassinatos promovidos pelo regime. Logo, os verdadeiros culpados por tudo isso não poderiam receber um pingo de consideração a mais de um filme sobre o guerrilheiro.

Funciona, mas Moura claramente admite, com essa escolha, alienar parcelas do público que ou não embarcarão em seu didatismo temático ou verão nos elementos ficcionalizados que ele emprega, um convite a questionar também o que é apresentado como fato. Ciente de que só deve conseguir “pregar para convertido”, entretanto, o diretor e co-roteirista encontra uma solução prática fascinante: abraça com coragem o preço da controvérsia e emprega soluções artísticas que reforçarão o impacto do filme sobre aqueles que, com ele, permanecerem engajados.

Assim, Humberto Carrão se torna o guerrilheiro Humberto; Bella Camero, a guerrilheira Bella; Guilherme Ferraz, o guerrilheiro Guilherme; até o pastor Henrique Vieira, ator de formação, dá vida ao padre aliado à ALN, Frei Henrique. Conforme borra as linhas entre atores e personagens, Moura explicita o elo entre a luta contra a ditadura e o progressismo que enxerga como essencial à classe artística. Como ator, ele sabe que isso informará às atuações de seu elenco uma mistura de sentimentos capaz de evocar performances sanguíneas e marcantes — o que faz. Enquanto diretor, usa isso para espelhar em tela o que quer despertar no público: a sensação claustrofóbica de estar a todo tempo sob a mira impiedosa de um regime opressor.

Em papéis menos metalinguísticos, Luiz Carlos Vasconcelos e Herson Capri emocionam como o braço direito de Marighella, Almir, e o jornalista militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Jorge Salles, respectivamente. Como o delegado fascista Lúcio, Bruno Gagliasso opta por ridicularizar o personagem com uma performance mais típica ao teatro, enquanto o ator Charles Paraventi rouba a cena em participação rápida como agente do governo dos Estados Unidos (e um grande cretino). Mas é Seu Jorge, escalado para o papel-título após saída de Mano Brown do projeto, o maior destaque.

Com uma imposição física altiva, aliada a um olhar lacrimoso que comunica as perdas pessoais advindas de uma vida entregue à luta por um ideal, Jorge alia imponência e vulnerabilidade em seu melhor trabalho no cinema até hoje. Na segunda grande cena do filme, que ecoa o primeiro terço de Moonlight (2016) para emendar a despedida entre o guerrilheiro e seu filho com sua prisão pela ditadura, em 1964, ele já deixa para trás qualquer memória do cantor famoso e passa a habitar integralmente o guerrilheiro. Além disso, a pele escura do ator fortalece o teor político do texto de Marighella, explicitando a identidade racial por vezes negada do guerrilheiro (filho de Maria Rita do Nascimento, mulher preta, e neto de escravizados africanos) e incorporando na crítica à opressão ditatorial a denúncia do racismo estrutural brasileiro.

Com um propósito artístico tão bem texturizado, acaba trabalhando contra o filme o fato de Moura emular muito da linguagem do cinema comercial norte-americano em suas grandes sequências de ação. A abertura do filme, um roubo ao trem filmado todo com câmera na mão e em plano-sequência, é um gancho irresistível para a história que ali se apresenta. Só que, à medida que se desenvolve o filme, esse retrato épico e grandioso de atos de resistência cria uma relação desconexa tanto com a representação naturalista, por vezes explícita e insistentemente desconfortável de violência, quanto com o desgaste emocional e físico que pontua os sacrifícios feitos por todos aqueles que, de forma mais ou menos pacíficas, se posicionaram contra a ditadura em seu auge.

Ainda assim, Marighella trabalha de forma tão fascinante as convenções da cinebiografia tradicional — retratando a figura histórica, mas extrapolando esse objetivo para também também refletir em sua estrutura e execução tudo aquilo que ela representa, ou deveria representar —, que é difícil não vê-lo como um dos grandes filmes de 2021. Polêmico, inquieto, independente e brutal, ainda que consciente disso; francamente revolucionário em suas intenções. Exatamente como Moura enxerga e defende seu personagem-título.

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