Fonte: Júlio Boll – GauchaZH

De um lado, a família da tradicional mãe judia. Do outro, o pai palestino regrado pelo islamismo. Para unir essas duas frentes, Abe só consegue encontrar a resposta onde sente o amor mais verdadeiro de sua vida: entre as panelas na cozinha.

Estrelado por Noah Schnapp (o Will Byers de Stranger Things) no papel-título, o longa-metragem de Fernando Grostein Andrade também enfrentou pedras no caminho antes de chegar ao Brasil. Lançado no Festival de Sundance, em 2019, a produção foi levada a mais de 30 festivais em todo o mundo e teve boa repercussão na Alemanha e nos Estados Unidos, antes da pandemia. Com o fechamento das salas de exibição, em 2020, Abe teve sua estreia adiada por aqui – mas sua relevância não ficou ultrapassada. Pelo contrário. Diante das mudanças sociais potencializadas em todo o país no período, o diretor certifica que seu longa de estreia ganhou ainda mais peso.

— Infelizmente, o país mudou para pior. Espero que esse filme consiga provocar as pessoas a perceberem como não vale a pena ficar cego pelo ódio e como é produtivo se conectar com humanidade independentemente de diferentes visões. Tem gente que lucra com polarização e briga. Quem vende arma precisa de guerra. Nosso filme vai na direção contrária: estamos apenas vendendo falafel — reforça Andrade, que também é criador da página Quebrando o Tabu, em entrevista por vídeo a GZH.

O envolvimento de Abe com a iguaria oriental surge após uma aventura por Nova York. Ao fugir de uma colônia de férias, o menino de 12 anos do Brooklyn, apaixonado por culinária e craque em bolos, parte para outra ponta da cidade a fim de conhecer o trabalho de Chico (Seu Jorge), um chef brasileiro que vende acarajé.

Por ter familiaridade com o falafel, um tanto semelhante, o bolinho brasileiro deixa Abe curioso. Assim, ele convence o imigrante a lhe dar aulas de cozinha – tudo isso, é claro, sem os pais da criança saberem. Ao mesmo tempo, o clima na casa do garoto pesa com uma iminente separação de seus responsáveis, cada vez mais em crise por conta das duas famílias terem identidades distintas. Eis que Abe, então, decide convocar um jantar familiar bem diferente.

— A cozinha aproxima as pessoas e possibilita, sim, a desconstrução de muitas ideias e de muitos preconceitos — acredita Seu Jorge.
Gerações

Para construir a narrativa de Abe, Andrade se inspirou livremente na própria história de vida: ele é filho de mãe judia e de pai católico. Trocar São Paulo, onde foi criado, pela chamada “cidade que nunca dorme” foi uma opção a fim de universalizar o debate do longa-metragem.

— Queria fazer um filme brasileiro que dialogasse com o mundo. Abe fala com criança, adulto, idoso, e também conseguiu chegar longe por ter sido feito em inglês. Isso, é claro, sem abrir mão do Brasil — acredita Andrade, lembrando que o longa faz homenagem à Bahia e tem faixas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes na trilha.

Outro aspecto visível é que a produção se preocupa em dialogar com a geração mais jovem. Seu Jorge, pai de três filhas, reconhece que a juventude atual é mais observadora e questionadora, e que o diálogo tem ajudado a superar os desafios.

— Sempre digo que é muito difícil criar os filhos da mesma maneira que fomos criados, porque como eles são novos, trazem muita coisa nova da era deles. É importante estarmos todos atentos com os ouvidos e as percepções. Por estar junto delas, superamos os desafios e as possíveis dúvidas que a vida pode nos trazer — conta Seu Jorge.

Para Andrade, este é um dos grandes méritos de sua obra: trazer esperança por dias melhores. O cineasta lembra que, quando tinha 15 anos, imaginava um mundo mais tranquilo, já que assistiu, por exemplo, ao presidente Bill Clinton, dos EUA, tocando saxofone na Casa Branca após um acordo entre os líderes de Israel e da Palestina em 2013.

— Nós tínhamos uma perspectiva de que iria dar tudo certo, e hoje vemos que tudo está cada vez mais para trás. A gente precisa acreditar na esperança. Do mesmo jeito que veio o perdão no filme, espero que o solo brasileiro sinta isso em breve — finaliza Andrade.

Assista ao trailer:

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