Fonte: Marcelo Müller – Papo de Cinema

A palavra catarse vem do grego kátharsis e significa purificação. Em muitos filmes, o catártico serve para devolver ordem a um mundo caótico, exatamente por meio de uma descarga emocional. A protagonista de Bela Vingança é Cassandra (Carey Mulligan), mulher beirando os 30 anos que não seguiu caminhos esperados. Mora com os pais, trabalha numa cafeteria pouco movimentada e tem sérias dificuldades para estabelecer vínculos – ao ponto de, em dado momento, seu pai alegrar-se diante do namoro assumido, mencionando como é bom “tê-la de volta”. Essa citação do retorno não é gratuita e, por sua capacidade de pressupor a mudança fundamental de comportamento, sintetiza boa parte das trajetórias pregressas às quais somos apresentados de formas distintas. Há as insinuações, como a supracitada, mas também instantes em que o bom roteiro a cargo de Emerald Fennell (também a diretora) utiliza personagens rememorando dores, esclarecendo a outrem e, por conseguinte, ao espectador o que os corrói, como chegaram vivos àquele instante.

Cassandra vaga pelos bares fisgando potenciais predadores sexuais, oferecendo como isca uma representação de alguém vulnerável pelo excesso de bebida. Aparentemente, busca algum tipo de paz na desforra contra os lobos em peles de cordeiros que se acham no direito de abusar de mulheres indefesas. Emerald Fennell destrincha seu método, mostrando ela registrando numa caderneta o que, pela variação da tinta da caneta, entendemos como lições distintas (da imposição pelo medo à agressão física). Gradativamente, o passado vai sendo conjurado para explicar esse comportamento errático e agressivo. Há uma lição escancarada quanto ao desequilíbrio gerado pela violência, sendo este responsável por provocar uma resposta equivalente em brutalidade, pretensamente capaz de reestabelecer a harmonia. Bela Vingança passa boa parte de sua duração revelando de que modo os sujeitos capazes de assediar e violentar são irmanados. Por isso mesmo, passíveis de sofrer castigos, consequências que seriam como pequenas purgações, ou seja, a lógica remissão dos pecados.

Emerald Fennell lança mão de uma estética muito eficiente para transportar Bela Vingança ao limiar da fábula, sobretudo pela apropriação proposital de certos códigos. Os cenários e roupas hipercoloridos, vide a protagonista vestida como se entre a infância, a adolescência e a vida adulta, a alusão visual à inocência pervertida, tudo isso funciona para delinear um conto moral. Ainda que a cineasta confira ao espectador acesso aos motivos que levaram Cassandra a se comportar assim, o mais importante no longa é o trajeto em que ela funciona ora como arauto, ora como anjo da vingança, tratando de ensinar lições a homens que se julgam acima do bem e do mal. Mesmo o encerramento, que parecia uma guinada rumo ao entendimento amargo (e real?) de que o mal nem sempre é punido, acaba submetido a esse nexo regido pelo princípio do castigo. Por meio da catarse chega-se à justiça que pode tardar, mas não falhar. Há uma franca idealização.

Os personagens de Bela Vingança são propositalmente tipificados para caber adequadamente nessa estrutura da fábula rumando à lição. Mesmo aquele que supostamente quebra a corrente da toxicidade masculina é assim exagerado ao ponto de pressupormos que carrega algo de errado. Quando a esmola é demais, o santo desconfia. As demais pessoas também se enquadram em arquétipos, como a ex-colega escrota e incapaz de sentir empatia (igual a reitora, o que configura uma reiteração); a chefe compreensiva; o advogado destroçado pela culpa; os algozes de outrora que parecem não ter mudado. O filme não dá espaço ao entendimento da possível “evolução” de Ryan (Bo Burnham), porque para além da complexidade dessas peças está a mensagem a se cunhada com a força das que precisam revidar diante da feiura do mundo. No entanto, Emerald Fennell perde a oportunidade de encerrar de forma intragável essa trajetória embalada por ótimas escolhas musicais e percorrida pela interpretação excepcional de Carey Mulligan. Ela prefere algo mais confortável, ainda que a vitória do bem somente seja possível depois de um sacrifício sintomático nesse mundo hostil às mulheres.

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