Longa de estreia de Lisa Joy, Caminhos da Memória é, na realidade, uma obra fortemente influenciada pela parceria da cineasta com o marido, Jonathan Nolan, que assina como produtor.

Fonte: Robledo Milani – Papo de Cinema

Logo que exibe suas primeiras cenas, Caminhos da Memória remete o espectador a um clássico moderno do cinema de ficção científica: Blade Runner: O Caçador de Androides (1982). Mas veja bem, não a versão do diretor, lançada anos depois e que se tornou referência no gênero: a lembrança aqui faz referência ao formato primeiro liberado para o público, de acordo com as demandas dos executivos do estúdio, com aquele final absurdo e uma narração inadequada e por demais explicativa, que logo se descobriu ser execrada pelo diretor Ridley Scott e pelo protagonista Harrison Ford. Pois dessa vez também há um off detalhando em palavras aquilo que está sendo visto em imagem, numa reiteração irrelevante e até mesmo desrespeitosa, pois ignora a capacidade de assimilação do espectador. Nos dois filmes, vislumbra-se de imediato grandes cidades norte-americanas (Los Angeles lá, Miami aqui). Outro detalhe incômodo é que, se no thriller baseado na novela de Philip K. Dick aquela metrópole suja e repleta de neon fazia sentido enquanto cenário, essa realidade quase aquática aqui percebida é não mais do que uma mera gratuidade, que impressiona visualmente, mas se mostra irrelevante enquanto elemento dramático. Uma ostentação que termina desperdiçada e determina o tom da narrativa a ser desenvolvida pelas próximas duas horas.

Longa de estreia de Lisa Joy, Caminhos da Memória é, na realidade, uma obra fortemente influenciada pela parceria da cineasta com o marido, Jonathan Nolan, que assina como produtor. Os dois são responsáveis pela série Westworld (2016-2022), outro produto que também foi lançado repleto de expectativa, mas que a cada nova temporada aumentava o nível de decepção entre o público. A mesma sensação percebida agora no cinema, pois este é um filme que começa apostando alto, mas vai diminuindo seu impacto gradativamente, na mesma proporção em que vê crescer a frustração na audiência. Por mais que seja uma história assumidamente feminina – escrito e dirigido por uma realizadora, com mais de uma forte mulher em cena – o ponto de vista escolhido é o masculino (o que não deixa de denotar certa misoginia). Nick Bannister (Hugh Jackman, que tem porte de herói, mas carece de sensibilidade para as cenas mais emotivas) dirige um negócio que sobrevive da nostalgia dos outros. Como o próprio chega a afirmar, “o futuro se tornou tão angustiante que as pessoas preferem passar a maior parte do tempo olhando para o passado”. Frases de efeito como essa se repetirão incansavelmente até o término da projeção.

O que ele proporciona é que indivíduos dispostos a pagar por isso possam ser levados a uma experiência imersiva de reviver grandes momentos de suas próprias histórias. Quando Mae (Rebecca Ferguson, deslumbrante, mas sem fazer a menor questão de esconder suas reais intenções) bate à sua porta alegando ter pedido as chaves – e, por isso, precisa recordar onde as teria deixado – tão certo como a paixão imediata que desperta nele é a certeza de que esse encontro não tem nada de ao acaso. O surpreendente, no entanto, é quando o rapaz finalmente se dá conta disso, a cara de espanto nada convincente que tenta vender ao espectador: “nossa, então era uma armação desde o começo”, exclama. Mais estranho ainda é vê-lo submetido ao encanto de Ferguson – bonita, mas sem uma presença marcante – quando ao lado dele está a incrível Thandiwe Newton, subaproveitada como uma auxiliar secretamente (ou quase isso) apaixonada pelo patrão. “Nós acertamos nossas arestas há muito tempo, e acredito que os dois ficaram em paz com isso”, ela solta ao ar na tentativa de justificar o inexplicável.

O que Lisa Joy tenta fazer com seu filme é emular os signos de uma trama noir, mas sem a habilidade e nem a expertise para tanto. O que se vê, então, são figuras como a femme fatale, o capanga violento e o chefão misterioso desfilando pela história, mas de forma quase aleatória, pois falta uma conexão verossímil entre eles. Reviravoltas se dão sem emoção, descobertas são feitas sem que ninguém tivesse pedido por elas e no meio disso tudo há tanta água – ecos de Waterworld (1995), tanto na ambição como no fracasso, ecoam do início ao fim – que quando um vilão tenta matar o mocinho o afogando em um aquário nem mesmo a ironia dessa situação é encarada com o devido humor. Pelo jeito, Joy é tão sisuda quando o cunhado – o controverso Christopher Nolan – e leva à sério a realidade que propõe, sem se dar conta que ao invés de encher seu projeto de adereços desnecessários, melhor teria sido se concentrar no que de fato importa: a história que precisa ser contada. Porém, o melodrama que se esforça em esconder no meio de tantos exageros não permanecerá distante o bastante, e entre lições de filosofia barata e um amor tão profundo quanto inverossímil, o que restará é uma fantasia incapaz de se sustentar pelas próprias pernas.

Afinal, quando o único desfecho que encontra não apenas contradiz tudo o que foi dito até aquele momento – “as memórias podem ser viciantes, e por isso precisam ser acessadas em doses homeopáticas” – como também chega embalado por uma farsa, percebe-se que qualquer tentativa de “final feliz” proposta é tão fútil e desprovida de significado quanto qualquer debate explorado pelo conjunto. E se roteiro, direção e atuações se mostram canhestras, também questões técnicas fazem do projeto um legítimo tiro n’água (na falta de expressão melhor). As cenas de lutas são confusas e mal coreografadas, a fotografia se esforça tanto para distinguir lembranças da realidade que termina por torná-las indissociáveis, e a trilha sonora, além de mal aproveitada, também se apresenta excessiva. Enfim, há muito com o que se preocupar, e pouco que aparente ser digno de salvação. Entre bandidos sendo engolidos por pianos, enguias que não mordem, mentiras nada convincentes e uma ausência absurda de carisma ou tesão, Caminhos da Memória merece apenas um destino: um rápido esquecimento.

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