Filme de René Sampaio usa diferenças do casal para abordar política e dominância

Fonte: Eduardo Pereira – Omelete

O romantismo de “Eduardo e Mônica”, essa faixa da Legião Urbana que desde 1986 permanece vivíssima no imaginário popular (muito graças às mais ébrias rodas de karaokê), se sustenta sobre a antiga máxima de que “os opostos se atraem”. Sem impor à própria obra uma seriedade exagerada, Renato Russo conseguiu pinçar divertidas contraposições de personalidade para colorir uma relação fictícia que é ao mesmo tempo verossímil e fantástica — enquanto usa as pequenas incoerências (e grandes lacunas narrativas) para convidar o ouvinte a preenchê-las com sua própria imaginação. É um hit nato, claro.

Só que essa fórmula de sucesso não caberia às telonas, onde se pressupõe não só que a imagem faça as vezes de preencher lacunas e melhor contextualizar a trama da música, como os personagens pedem mais profundidade e humanidade. Depois de diminuir a escala de “Faroeste Caboclo” para levar a música às telonas de forma mais trágica e intimista, o diretor René Sampaio adota outro método com a faixa sobre o improvável casal: seu Eduardo e Mônica segue como um mapa a letra de Russo, se aprofundando e adicionando elementos sem nunca contradizer a obra original. Com essa maior fidelidade, o texto de Matheus Souza encontra mais espaço para a leveza e o fan service, mas também mantém a proposta defendida por seu predecessor, de imprimir atualidade à obra da Legião, ao retratar os personagens-títulos sob o prisma da politização.

Partindo de uma “festa estranha, com gente esquisita”, acompanhamos o flerte desengonçado de um garoto de 16 anos (Gabriel Leone) com uma estudante de Medicina para lá de seus 20 (Alice Braga), na Brasília dos anos 1980. Sem pai ou mãe e criado pelo avô militar (Otávio Augusto), Eduardo é um avatar da Classe Média padrão brasileira: reverente por padrão aos bons costumes e movido pela busca por um bom emprego, uma boa mulher, uma boa casa e uma boa morte — sem pensar muito em “comos” e “porquês” do meio do caminho. Mônica, por outro lado, habita a esfera da elite progressista: de pai artista e mãe médica, navega a vida antes de tudo em busca de estímulos psicológicos e oportunidades de se posicionar contra a norma. O interesse inicial de um pelo outro é, portanto, enraizado no filme como fuga: ele quer experimentar o inseguro, enquanto ela quer descansar a mente com algo que lhe pareça comum.

O que enriquece esse aterramento do conflito entre “razão” e “coração”, emprestado diretamente da música da Legião, é como Eduardo e Mônica retrata de forma sensível os jogos de poder envolvidos em uma relação tão díspar quanto a cantada por Renato Russo. Idade, gênero, bagagem cultural, posicionamento político, experiências de vida — enquanto se desdobra em tela, o relacionamento do casal-título ilustra como esses elementos pessoais conversam com o desenho social e, juntos, influenciam todo e qualquer relacionamento de fora para dentro, ditando a dinâmica de dominância entre as partes. Se é a estudante de medicina, uma adulta, que opta por permitir a um garoto a aproximação necessária para uma relação, é o adolescente Eduardo que se faz valer da masculinidade para ter nessa disparidade um motivo de orgulho; uma vantagem. E só conforme aceitam alternar papéis de pupilo e professor é que ambos se permitem evoluir enquanto casal.

Se esse vai e vem consegue segurar a atenção do espectador sem soar motivado apenas por interesses de roteiro, é graças ao comprometimento pleno de Leone e Braga em seus papéis. O casal de protagonistas transborda em química, conseguindo vender de forma natural até os momentos em que o filme se admite comédia romântica e mergulha de forma honesta em cenas que são puro clichê. É louvável, também, que a produção preserve a diferença de idade original entre os personagens, mesmo que force a suspensão de descrença do público ao escalar atores já maduros para papéis tão jovens: não demora a ficar claro que a narrativa de Eduardo e Mônica só é enxergada com tanto romantismo por ser a relação de um homem mais jovem com uma mulher mais velha — e não o contrário.

À parte da linguagem mais chula, a verdade é que há tantos pontos problemáticos na música da Legião quanto, por exemplo, na abertamente sexista “Me Lambe”, dos Raimundos — com a grande diferença sendo a inversão de gêneros. A redenção da narrativa de Russo acontece em duas frentes ausentes na faixa cantada originalmente por Rodolfo Abrantes: primeiro, graças ao apelo universal ao romantismo do “amor verdadeiro”. Segundo, por atender a uma visão patriarcal que prega que homens não podem ser vítimas de abuso de mulheres. Ao não fugir dessa polêmica em seu filme, mas incorporá-la, Sampaio reforça a tese do amor como artifício capaz de tornar irrelevante essas diferenças. É funcional, sem ser panfletário.

Melhor: conforme crescem em tela, tanto Eduardo quanto Mônica se mostram complexos o bastante para não serem reduzidos aos adjetivos que já conhecíamos pela música, conferindo ao filme um frescor que é amplificado pela qualidade visual caprichada da produção. A direção de fotografia de Gustavo Hadba tira proveito da plasticidade das áreas planejadas de Brasília para contrapor o turbilhão emocional do casal com a sobriedade e elegância do design da cidade, enquanto a direção de arte de Tiago Marques faz um trabalho mais que competente de recriação histórica com a década de 1980. Com uma trilha sonora que mergulha em The Smiths, Joy Division, David Bowie, Titãs e outros colossos do som da época, a jornada é divertida até quando cai nas obrigatoriedades dos filmes médios de romance.

Não é à toa que, assistindo ao filme, me peguei lembrando do impacto que longas como 500 Dias Com Ela (2009), Amor e Outras Drogas (2010) e Um Dia (2011) tiveram em toda uma geração de adolescentes — com seus perfis sedentos no Tumblr — e sua visão, às vezes até um pouco equivocada, sobre cinema e amor. Traço o comparativo em tom elogioso: Sampaio consegue emular essa mesma energia do romance indie, tão pop na última década, para mostrar como a canção da Legião se manteve e se mantém pop há quase 40 anos. Em Eduardo e Mônica, tanto a geração atual quanto aquela que se apaixonou pela história quando a ouviu cantada pela primeira vez se encontram na comédia romântica mezzo sad boy, mezzo sad girl definitiva para a identidade cultural popular brasileira.

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