Fonte: Leonardo Ribeiro – Papo de Cinema

Ainda que não possua mais a mesma força, ou relevância, de seu auge – ocorrido entre as décadas de 1950 e 1970, quando cineastas como Mario Monicelli, Dino Risi e Luigi Comencini passavam por seu período criativo mais intenso – a comédia continua sendo um gênero de grande apelo popular dentro da produção cinematográfica italiana. Um exemplo contemporâneo deste sucesso são os filmes estrelados pelo comediante Checco Zalone, nome artístico de Luca Pasquale Medici. Oriundo da televisão, Zalone, que além de ator também acumula as funções de roteirista e compositor, se transformou em um verdadeiro fenômeno comercial após o lançamento de seus três longas anteriores – todos realizados em parceria com o diretor Gennaro Nunziante – que sucessivamente quebraram recordes de público. Com Funcionário do Mês, seu último trabalho, a história não foi diferente.

O filme alcançou o posto de produção italiana de maior bilheteria do país em todos os tempos, e segunda maior no geral, atrás apenas de Avatar (2009). A trama, novamente comandada por Nunziante, acompanha Checco (Zalone) um homem que leva a vida que sempre sonhou: tendo um emprego estável como funcionário público na Secretaria Regional de Caça e Pesca de sua pequena cidade, mantendo-se solteiro ao evitar propor casamento à sua namorada e vivendo sob o teto, e mimos, da mãe. Esta realidade, porém, começa a desmoronar quando o governo lança um programa de cortes nos cargos públicos e Checco se vê obrigado a escolher entre assinar sua demissão ou ser transferido.

A princípio é difícil nutrir qualquer tipo de empatia pela figura desagradável de Checco, que se mostra uma pessoa egoísta, preguiçosa, racista, sexista, entre outras falhas de caráter. A trama já começa repleta de estereótipos batidos, e muitas vezes ofensivos, ao mostrar o protagonista sendo capturado por uma tribo africana e contando a trajetória que o levou até àquela situação. A narrativa, que assume o formato de flashback, se mostra bastante apressada no primeiro ato, apresentando um descompasso no timing cômico. Além disso, muitas piadas possuem um teor regional particular que pode se perder entre o público menos familiarizado com a cultura local, como quando Checco é questionado sobre a falta de compaixão dos italianos e replica dizendo que “somente os milaneses são assim”.

Como Checco se recusa a assinar a demissão para não perder seus benefícios, a encarregada enviada pelo governo, Doutora Sironi (Sonia Bergamasco), o transfere para diversos locais na tentativa de fazê-lo se render à sua proposta. Isto acaba levando o protagonista à Noruega, onde se passa todo o ato central, e quando o longa melhora consideravelmente. Trabalhando em uma estação de pesquisas num território norueguês do Pólo Norte, ele conhece e se apaixona pela ecologista Valeria (Eleonora Giovanardi). Com a paixão vem a possibilidade de redenção para Checco, que se torna ciente de sua personalidade condenável e busca se tornar alguém melhor. O choque cultural também surge, gerando piadas mais elaboradas e bem colocadas, como a cena do jantar com os filhos multiétnicos de Valeria.

O tom politicamente incorreto é mantido, mas o olhar cômico se volta à própria Itália, com as comparações entre o civilizado modo de vida nórdico e as características comportamentais pouco admiráveis do povo da Terra da Bota. A visita dos pais de Checco à Noruega evidencia estes contrastes, rendendo ótimos momentos, como quando são recebidos pelo filho no aeroporto. Mas a nova faceta do personagem não resiste muito tempo, e este sucumbe aos velhos hábitos – buzinar no trânsito, parar em fila dupla – retratados em cenas realmente hilárias, como o acesso de raiva no restaurante de Cozinha “Italiana”. As críticas à situação política e econômica de seu país também são interessantes, já que Zalone não poupa nenhum dos lados: nem o governo que realiza cortes sem se importar com o lado humano destas ações, nem os servidores públicos que simplesmente se aproveitam das regalias de seus cargos.

O longa, entretanto, não sustenta esta autocrítica até o fim, se entregando a certa celebração do “jeitinho italiano” de ser. A narrativa se perde um pouco no ato final, devido ao excesso de acontecimentos – Checco e Valeria virando donos de uma clínica de recuperação de animais e até uma sequência musical – em tão pouco tempo. A direção de Nunziante se mostra limitada, sem muitos recursos, fazendo com que o filme pareça mais uma série de esquetes televisivos, e os valores de produção por vezes são pobres, como os efeitos especiais na cena do urso polar. Estas irregularidades fazem com que o filme, tal qual a própria redenção do protagonista, fique num meio termo, com sua aceitação dependendo muito da conexão do público com o estilo de humor de Checco Zalone, o que é sempre um risco. Como os números de bilheteria deixam claro, isto definitivamente não se mostrou um problema para as plateias italianas. Já para o resto do mundo fica difícil saber se a resposta será a mesma.

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