Diretora oferece uma experiência de sobrecarga na era da distração e da produtividade

Fonte: Marcelo Hessel – Omelete

Bem, vamos assumir de partida que as máquinas venceram. Nos 20 anos que separam o primeiro Matrix deste Matrix Resurrections, no contexto hollywoodiano, o cinema digital serviu menos para sondar novos limites pictóricos da arte do que para otimizar seu potencial fabril. Em 2021, graças à computação gráfica, atores e atrizes são rejuvenescidos e podem contribuir perpetuamente com a indústria, e o sucesso de um filme não é medido em impacto cultural ou mesmo em bilheteria, mas em minutos assistidos, num pacto de produtividade que o espectador parece aceitar como um operário modelo.

Percebe-se o cansaço de Hollywood consigo mesma em dois filmes importantes deste ano, que, por motivos distintos, escolhem renunciar à ação. O primeiro é Cry Macho, um faroeste de ação sem ação que acompanha Clint Eastwood em sonecas e refeições, completamente consciente de que a mitologia do nonagenário Clint caminha sozinha e se basta. O segundo é este quarto Matrix. Cry Macho é um filme mais radical na renúncia da ação, enquanto Matrix Resurrections, na base da ironia e da metalinguagem, tenta dar conta de ser um anti-blockbuster e um blockbuster simultaneamente.

Nessa recusa dos novos tempos, ambos os filmes estão tentando reagir à máquina e reparar um estado anterior de uma Hollywood “artesanal”. Cry Macho o faz restabelecendo o narcisismo do velho star system, enquanto Matrix Resurrections escolhe a boa e velha história de amor, imune ao tempo e cuja experiência foge à lógica dos algoritmos. Lana Wachowski também entende o poder do mito, e este reencontro dos ressuscitados Neo e Trinity tira sua energia do acúmulo de memórias afetivas e de imagens, tanto as inéditas quanto aquelas muitas resgatadas da trilogia original. O resto é ruído.

É interessante acompanhar como Matrix Resurrections aborda e resolve essa questão do ruído (que nas palavras de Niobe é literalmente um zumbido, inerente à vida na Matrix). Como o primeiro filme investia mais no orientalismo, concentrar-se e enfrentar o ruído era uma operação de natureza zen-budista que acompanhava bem o filme de artes marciais. O quarto Matrix continua tendo sua dose de kung fu, mas isso se tornou absolutamente periférico na narrativa – na negação da ação, virou parte dos ruídos. Quando não está fazendo o cego no tiroteio, Neo se junta a novos aliados em bacanais visuais cujos corpos têm seus contornos indistinguíveis. A linda pancadaria no vagão é o melhor exemplo. Relembrando Speed Racer (2008), Lana concebe planos nas cenas de luta como uma cacofonia de CGI que está mais próxima das artes plásticas do que da estática pose de action figure dos filmes de super-herói.

(A essa altura parece redundante dizer que, quando tenta honrar sua fama de action figure – e há várias estatuetas espalhadas nas mesas dentro da Matrix, a título de fan service sarcástico – Neo se sai uma negação, uma paródia de si mesmo. De resto é muito chocante perceber como este Matrix tem muito menos pudor do corpo, dos encontros e amontoados de corpos do que a maioria dos filmes do MCU, em que frequentemente cada ator ou atriz parece habitar solitariamente um espaço unicamente seu, ainda que compartilhado.)

Ou seja, na impossibilidade de repetir a solução zen (porque negar que vivemos no século da superexposição ao ruído seria um desserviço), Lana Wachowski lida com o ruído exacerbando-o, e o que anula o ruído é justamente o espírito autossabotador do filme. Num momento, enquanto todos se batem, o Merovíngio ressurge como comentarista irônico da ação, esvaziando-a de sentido. Em outro, a ação é interrompida antes mesmo de começar quando o vilão discursa sobre a suspensão do tempo do bullet time. Quando não escolhe a sobrecarga sensorial, Lana parte para a sobrecarga textual. É como se só pudéssemos ser despertados da nossa dieta de ruídos com uma overdose deles, e o filme coloca em risco sua própria integridade ao propor essa dinâmica do excesso.

Assumir que não há muito propósito na empreitada de ressuscitar para o mercado uma franquia sobre a virada do século e fechada há 18 anos é o que faz Lana Wachowski abraçar o impulso autodestrutivo com tanto vigor. Ela importa novamente da cultura cyberpunk oriental um certo sadismo, e no filme esse fetiche se inscreve de maneira muito forte nas imagens dos corpos de Neo e Trinity reconstruídos bizarramente pelas máquinas, como que torturados de volta à existência. É difícil imaginar um comentário mais desgostoso sobre a realidade hollywoodiana do que essas cenas de feitura industrial da eterna juventude.

Como o nosso herói responde a tudo isso, refém do reboot na era da eterna vigília? Com um superpoder que visualmente parece um hadouken de ar, essencialmente um gesto de negação de contato, que gera um bolsão de quietude, nem que só por um instante. A que ponto chegou a impaciência de Lana Wachowski com os reaças americanos no Twitter, que se apropriaram da filosofia da pílula vermelha: seu protagonista transita pela matrix atrás de cinco minutos de prosa e café com a mulher que ele ama, mas todos insistem em atravessar a conversa. “Eu odeio bots”, diz uma das novas aliadas de Neo, enquanto o herói segue afastando os indesejados com seu airdouken, como num pesadelo carpenteriano onde todos ao redor se advogam o direito de dar pitaco na vida dele.

Há um tanto de John Carpenter na distopia do novo Matrix mas há também um pouco de Philip K. Dick. Tomar as ironias de Lana Wachowski como sinal de descaso seria um erro, porque mesmo na subversão ela busca esses tipos de referências consagradas da distopia scifi para fundamentar suas ideias. Talvez hoje as pessoas não se lembrem, mas Paul Verhoeven foi muito feliz em O Vingador do Futuro (1990) ao traduzir visualmente as ideias de K. Dick sobre realidade, sonho e simulação com o uso de espelhos partidos, cacos de vidro, reflexos distorcidos. Isso está em Matrix Resurrections desde o primeiro plano, que inverte cima e baixo na imagem refletida em uma poça de água. Assim como Verhoeven, Lana entende que questionar a própria imagem filmada, dentro de uma lógica de cinema industrial, se potencializa quando se traveste de sátira, diante do espelho.

No fim talvez Neo inveje Niobe, que envelhecida e isolada diz valorizar o silêncio, nos seus dias sem guerra. Acontece que o mundo fora da Matrix não é mais uma opção nos novos tempos, dado que aqui fora as máquinas nos venceram. Pode passar batido, mas Matrix Resurrections inverte situações bravamente quando estabelece que o terreno da desconfiança não é a matrix, mas fora dela. Dentro da matrix as forças em jogo já são bem conhecidas, e cada uma delas sabe do seu lugar.

Esse paradoxo entre aceitar as regras da simulação e teimosamente tentar subvertê-las é o que move o filme, mas não é necessariamente inédito. Na figura da protagonista Rey, Star Wars – O Despertar da Força já propunha um olhar feminino para uma via não-binária, dentro de um organismo consagrado e certo, e Lana Wachowski está trilhando caminho conhecido quando propõe que sua franquia faça o mesmo. Buscar a utopia dentro e apesar da distopia estabelecida parece ser o novo padrão da ficção, numa sociedade cada vez mais habituada a conviver com o fim do mundo. Há formas diferentes de lidar com isso. Jogador Número 1 escolhia a saída absurda de eleger dois dias da semana para desligar a realidade virtual que frita o cérebro dos seus jovens – a pura sistematização da distopia. Já Matrix Resurrections se revolta como pode contra o sistema que o nutriu e acolheu, colocando Neo em lutas de muvuca indivisíveis e cansadas, denunciando os quase 60 anos de Keanu Reeves com a mesma indolência com que Clint Eastwood se recosta, abre seus sorrisos e baixa seu chapéu.

Publicações recentes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

  +  47  =  56