Gabriel Martins constrói com delicadeza filme sobre resiliência popular frente às injustiças

Fonte: Eduardo Pereira – Omelete

Em Marte Um, as muitas desigualdades que estruturam a sociedade brasileira são a raiz da morte dos sonhos, sufocados por uma realidade onde o sofrimento é pré-requisito para o rompimento de barreiras. Nesse contexto, a eleição de Jair Messias Bolsonaro à Presidência da República em 2018, que serve de pano de fundo para o filme de Gabriel Martins, é propositalmente esvaziada do sentido apocalíptico que recebeu de muitos, desde então. No filme, escolhido para representar o país na disputa a uma vaga do Oscar 2023, Bolsonaro torna-se mero espectro em uma sensível denúncia de mazelas sociais e políticas muito mais antigas e complexas — além de motivação para uma mensagem de esperança.

A escolha de diminuir o papel de Bolsonaro na perspectiva histórica do sofrimento no Brasil é essencial para ambos os fins porque integra organicamente o que Marte Um quer comunicar de forma mais incisiva: o poder da perseverança popular. Se o conservadorismo que se intensificou no país com as eleições de 2018 tornou ainda mais angustiante a experiência de vida de brasileiras e brasileiros marginalizados por raça, gênero, classe social ou outrem, o texto de Martins reconfigura a dor como combustível motivacional. Isso porque lembra que, com ou sem o atual presidente na equação, ainda seria essencial resistir, lutar, sonhar e ousar para superar divisões já enraizadas na cultura global.

Com um filme tão assumidamente temporal, seria fácil para um cineasta menos hábil cair em proselitismo político ou, como alternativa, mergulhar no melodrama. Felizmente, Martins passa longe dessa armadilha graças ao foco na caracterização de seus personagens; todos eles tematicamente essenciais em suas frustrações e contradições. Wellington (Carlos Francisco), Tercia (Rejane Faria), Eunice (Camilla Damião) e Deivinho (Cícero Lucas) são pai, mãe, filha e filho em uma família mineira pobre que atravessa uma série de crises internas, reflexos da turbulência brasileira atual. Quando não são confrontados pela realidade dura que os cerca, portanto, os anseios de cada batem de frente entre si, o que confere a Marte Um uma polissemia cativante.

Seja no emprego explorador de Wellington, na saúde mental frágil de Tercia, no medo que cerca o amadurecimento sexual de Eunice ou na verdade por trás do sonho profissional de Deivinho, Marte Um consegue construir símbolos elaborados e complexos de prisões emocionais e econômicas que se tornam ainda mais evidentes graças à escalação de um elenco predominantemente preto não só como protagonista, mas também em papéis de apoio. Isso permite ao filme não só confrontar a histórica ausência de representatividade negra nos grandes filmes nacionais, como também abordar direta, mas sutilmente o racismo estrutural que assola tão intimamente a identidade do Brasil.

É o caráter constante e predominante dessa sutileza que eleva o filme. Em seus momentos mais poderosos, Marte Um traz política, economia, direitos humanos e outras pautas sisudas inseridas no subtexto de temas universais, como o amor. Suas cenas mais belas são sobre amizade, perdão, saudade e harmonia. E tudo isso acontece de forma não só naturalista, mas natural. É o que distancia o filme, apesar de consideráveis similaridades, de Parasita (2019): Martins rejeita conscientemente o espetáculo do exagero, como na reviravolta afetada ou no terceiro ato sangrento do longa de Bong Joon-ho. Em troca, há o destaque ao singelo. Muito mais simples, mas não menos marcante.

Tudo isso, porém, não é transmitido sem algum ruído. Há em Marte Um uma escolha pouco desenvolvida de colocar na boca de um personagem criminoso um discurso revolucionário válido — o que pode suscitar interpretações múltiplas, servindo como bucha de canhão para apoiadores do mesmo sistema que Martins condena com seu roteiro. Também é difícil não sentir que a resolução do arco de Tercia, flerte mais intenso do longa com algum realismo fantástico, aconteça de forma minimamente apressada. A sorte é que tudo se desenrola sobre o lastro das performances envolventes de Francisco, Faria e Damião, e do carisma inocente de Lucas, em uma escalação de elenco inspirada que compensa as arestas menos aparadas.

Contando ainda com uma montagem delicada, que Martins divide com Thiago Ricarte para espaçar as cenas em ritmo contemplativo, Marte Um também escora suas afetuosas reflexões em uma fotografia graciosa de Leonardo Feliciano. A trilha sonora orgulhosamente emotiva de Daniel Simitan também brilha, embalando lindas imagens de céu estrelado que, em contraste com os olhares perseverantes dos personagens, desenham de forma lírica a imensidão da diversidade humana e a pequenez de quem se empenha na tosca e em última análise inútil tentativa de freá-la.

Publicações recentes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *




Enter Captcha Here :