Florian Zeller coloca público na visão do protagonista, evocando empatia em uma situação familiar para muitos

Fonte: Julia Sabbaga – Omelete

A narrativa do colapso da sanidade no cinema, de modo geral, tem duas alternativas, frequentemente utilizadas no terror ou gêneros parecidos: aproximar o espectador como cúmplice e testemunha da deterioração mental de um personagem, ou distanciá-lo, produzindo um exemplo amedrontador da loucura. Em Meu Pai, longa de Florian Zeller em que o diretor adapta sua própria peça, as fórmulas são deixadas de lado para um retrato mais importante: aqui, o público é mais que aliado do protagonista, e enxerga o mundo como ele. Para isso, Zeller utiliza os mais variados recursos artísticos, construindo um trabalho tão devastador quanto poético.

Em Meu Pai, Anthony (Anthony Hopkins) passa por diversas cuidadoras e recusa auxílio, enquanto sua filha Anne (Olivia Colman) tenta se ajustar às vontades de seu pai e criar um cenário reconfortante antes de se mudar para o exterior. Esta, pelo menos, é a trama inicial. Meu Pai rapidamente desliza para diferentes situações – minimamente semelhantes – e conversas repetidas, confusas, alterando detalhes no cenário ou nos próprios personagens, elaborando um mundo em que é difícil saber no que confiar. Isso poderia ter sido feito de modo exagerado, mas o triunfo de Zeller, na realidade, é sua delicadeza.

O filme se passa inteiramente dentro de um apartamento, que por vezes é o de Anthony, às vezes é de Anne, e figuras diferentes aparecem e somem sem grandes explicações. Intensificando cada vez mais a confusão do protagonista, Meu Pai vai deixando o espectador mais desconfortável e vulnerável cena após cena, sem nunca descansar até o seu arremate final. Claro que a performance (sempre) magnífica de Anthony Hopkins é o que provoca lágrimas, mas é interessante que mesmo liderado por um dos atores mais competentes do cinema – em uma atuação brilhante – é a direção e as decisões artísticas de Zeller que constroem o retrato certeiro de Meu Pai.

Depois de assistir ao longa é difícil imaginar um retrato da demência tão cortante e fiel. Para quem já viveu situações semelhantes com entes queridos, é quase impossível não se identificar com os que rodeiam Anthony e perdem a paciência, dispensando suas confusões como teimosias. Vê-los da perspectiva de Anthony é excruciante. Meu Pai é uma experiência sensorial importantíssima para compreender e empatizar com a situação. Assim como Amor fez há alguns anos, o filme é um relato arrasador da velhice, que deixa uma sensação inquieta difícil de dispensar.

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