Fonte: Hugo França – Club do Filme

Dotada de grande sensibilidade e profundidade, “O Colibri” mergulha no universo de uma família em busca de felicidade em meio a perdas e desencontros. Através de uma narrativa não linear que transita entre as décadas de 70 e 90, a diretora e roteirista Francesca Archibugi constrói uma história de amor platônico e devoção familiar, que emociona e comove o espectador. Baseado no romance homônimo de Sandro Veronesi, trama é conduzida pela força das recordações, que permitem saltos no tempo em um enredo líquido, fluído e envolvente.

A trajetória de Marco Carrera, o protagonista vivido por Pierfrancesco Favino, é permeada por coincidências fatais, perdas irreparáveis e amores absolutos. O amor de sua vida é Luisa Lattes, interpretada por Bérénice Bejo, uma moça bonita e incomum que ele conhece à beira-mar e com quem nunca consegue consumar sua paixão. Em sua vida de casado, ao lado de Marina (Kasia Smutniak) e da filha Adele (Benedetta Porcaroli), Marco tenta esquecer Luisa, mas a sombra desse amor não o abandona e o leva a uma série de tragédias que afetam sua vida.

O filme aborda temas importantes como saúde mental, quebrando tabus e mostrando a importância do diálogo e da empatia para ajudar a enfrentar as dificuldades. Nanni Moretti vive a psicanalista de Marina e tem um papel fundamental na história, mostrando como é possível quebrar o sigilo profissional para um bem maior. Archibugi usa a imaginação dos personagens como uma ferramenta importante para criar uma trama complexa e profunda. Marco e Luisa imaginam uma relação que nunca acontecerá, Marina acredita em suas próprias invenções e Adele se sente presa em sua própria vida. A realidade muitas vezes é decepcionante e, por isso, a imaginação se torna a única forma de sobrevivência.

O elenco é excepcional, com atuações marcantes de todos os envolvidos. A atuação de Pierfrancesco Favino é marcante e emocionante, e ele consegue transmitir a ingenuidade e a bondade do personagem, que se distancia do imaginário comum do homem viril. Kasia Smutniak também entrega uma performance forte e completa, dando vida a Marina e sua busca por felicidade em um mundo que não permite que ela seja livre para seguir seus próprios sonhos. A atriz fotografa perfeitamente a prisão em que Marina se encontra, criada por ela mesma, mas que não cabe nos esquemas que a sociedade desejava para ela. Benedetta Porcaroli também se destaca como a filha de Marco e Marina, Adele, que luta para escapar das expectativas impostas pela sociedade.

A direção de Francesca Archibugi é habilidosa em costurar as diferentes épocas e memórias, mantendo um ritmo que prende a atenção do espectador do início ao fim. Juntamente com o diretor de fotografia, Fabio Cianchetti, eles concebem um conceito que ao mesmo é deslumbrante, retratando a beleza do litoral italiano e da cidade de Florença, assim como consegue estabelecer tons suaves e delicados que alterna entre o onírico e o real, dando a sensação ao espectador de que em alguns momentos os personagens vivem seus maiores medos na realidade da tela. A trilha sonora de Franco Piersanti também merece destaque, pois a música é usada de forma delicada e eficiente para enfatizar as emoções dos personagens e criar uma atmosfera envolvente e emocionante.

No geral, “O Colibri” é um filme de grande qualidade cinematográfica que emociona, envolve e faz refletir sobre a importância da família, do amor e da busca por felicidade em um mundo cheio de desafios e incertezas. É uma obra que deve ser vista e apreciada por todos os amantes do cinema e da boa arte.

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