Cineasta da ansiedade, diretor coloca suas manias em defesa da invencibilidade dos jovens

Fonte: Omelete – Marcelo Hessel

Em teoria musical, drone é o nome dado a sons sustentados ou repetidos com mínima variação, que funcionam como uma base quase mântrica; o nome drone em inglês pode significar zumbido, o que explica melhor o efeito desse recurso na música. O recente documentário de Todd Haynes sobre o Velvet Underground dedica um bom tempo a explicar como John Cale aprendeu o minimalismo do drone e o transformou em uma parte fundamental do som da banda.

O cinema de Paul Thomas Anderson também funciona na base de um “zumbido”. A maioria dos seus filmes opera num estado hipnótico e permanente de movimento, à espera de uma ruptura. É notório o gosto do cineasta pelos planos longos de panorâmicas e pelos zoom-ins agressivos, para preservar esse senso de urgência e uma certa expectativa pela violência. Nos filmes mais “parados”, como O Mestre (2012) e Trama Fantasma (2017), o que faz as vezes do drone é mais a trilha sonora de Jonny Greenwood.

Embora o trabalho de Greenwood não possa ser definido como minimalista, é inegável a influência do drone sobre as criações do guitarrista do Radiohead, que se consolidou como um compositor para cinema (e agora indicado ao Oscar por Ataque dos Cães) graças a suas colaborações com PTA desde Sangue Negro (2007). Anderson dirigiu em 2015 um documentário sobre uma viagem para a Índia que ele fez com Greenwood, intitulado Junun. O drone é um recurso estimado tanto para o rock alternativo americano quanto para a música erudita indiana, e no filme Greenwood parece possuído pelo espírito do drone indiano enquanto se debruça sobre sua guitarra.

Saber que junun significa em hindi uma mania, uma paixão, fornece uma pista para entender o que torna tão afinada essa parceria entre Greenwood e o diretor. Ambos trabalham em função do alerta, da “paixão”, e quando a câmera de PTA se aquieta é Greenwood que compensa na música. A mania, no fim das contas, está no centro do cinema de PTA. Seus filmes são feitos de gente maníaca, seja porque esses personagens perseguem sonhos ou paixões, sentem-se perseguidos, ou porque algum defeito de cognição os impede de agir diferente. No compilado desses 25 anos de carreira, Anderson pode ser visto como um cronista da ansiedade nos nossos tempos.

Olhando por esse viés, parece natural que até uma comédia romântica como Embriagado de Amor (2002) trate da superação de neuroses pelo afeto. Já Licorice Pizza oferece uma situação diferente: primeiro, porque, ao contrário de Embriagado de Amor, desta vez PTA está fazendo uma comédia romântica sobre jovens, e o “primeiro amor” na ficção é sempre o terreno das possibilidades infinitas e não do sofrimento neurótico pelo fim antecipado; segundo, porque a trama se passa no começo dos anos 1970 em Los Angeles e envolve bastidores anedóticos de Hollywood, e a proteção da nostalgia impede que a memória se contamine de agitação ou pessimismo, por mais que ela tenha, como diz o título do filme, o gosto amargo do alcaçuz.

De todos os filmes de PTA, portanto, sejam os movimentados ou os mais contemplativos, Licorice Pizza é aquele que menos parece moldado para servir a uma narrativa de ansiedade. Seus jovens personagens aproveitam a vida sem receio, cientes de que nada os ameaça, e quando correm de um lado para outro o fazem, antes de tudo, porque têm muita energia para queimar. Ainda assim, é o zumbido e a ansiedade que nós sentimos; o longa transcorre como uma mistura graciosa de Era Uma Vez em Hollywood (2019) e Jovens, Loucos e Rebeldes (1993), mas com o ritmo adrenado de um Boogie Nights (1997). Desde o primeiro encontro dos protagonistas Gary (Cooper Hoffman) e Alana (Alana Haim), ocorrido de forma apressada numa fila de adolescentes que não para de andar, o que dá o tom do filme é a urgência.

O efeito disso é que nunca antes ficaram tão aparentes quanto em Licorice Pizza, por contraste, os instrumentos que PTA utiliza para hipnotizar o espectador com seus movimentos pendulares de câmera. Como a trilha do longa é feita essencialmente de canções de soul e rock, e os temas compostos por Greenwood soam aveludados e doces no registro de época, quem se responsabiliza pelo zumbido inquietante é a câmera. Não por acaso, nos close-ups ou nas panorâmicas, fica a sensação de que estamos revendo em ação um PTA da virada do século – ou melhor, um PTA já maduro mas que revisita seus filmes antigos porque afinal está fazendo aqui um longa sobre sua memória cinematográfica. (Essa impressão é evidentemente inflamada pela presença magnética em cena de Cooper, o filho do finado Philip Seymour Hoffman, ator de cinco longas de PTA.)

A sacada de Licorice Pizza – que serve de voto de fé na invencibilidade da juventude, não mais nem menos – é que os únicos envolvidos que não se deixam abalar nessa história toda são justamente os mais afetados, Gary e Alana. Eles passeiam pelas duas horas e pouco de Licorice Pizza como se estivessem assistindo ao filme de si mesmos, criando novas “ficções” a cada instante. Planos como o close-up extremo na agente de talentos que entrevista Alana fazem parecer que não estamos assistindo a uma crônica da juventude mas sim um thriller de paranoia, mas Alana não se afeta. Diante de Sean Penn, ou de qualquer outra figura adulta de autoridade que atravessa seu caminho, ela não resiste a olhá-lo com uma ponta de escárnio, à espera não de uma ruptura, mas de uma punchline.

PTA e Quentin Tarantino prosperaram profissionalmente quase ao mesmo tempo, e ambos entendem o cinema como um campo de batalha onde se resolvem nossos desejos secretos, nossas manias. Se Era Uma Vez em Hollywood é uma celebração desse cinema como um terreno de pulsões onde até a História pode ser reescrita, se assim desejarmos com convicção, Licorice Pizza vai um pouco além e nos diz que nada é mais importante que esses desejos, porque é deles que depende nossa formação. Sob a magia do cinema, eles estarão sempre protegidos, invulneráveis contra todo tipo de neurose, como deveria ser sempre com os desejos de qualquer juventude em qualquer época. O filme trabalha com signos de ansiedade apenas para desarmá-la em seguida, e não parece exagero dizer que, com isso, PTA faz aqui uma grande autoavaliação do seu cinema e da sua visão de cinema.

A essa altura pode parecer redundante dizer, mas vale lembrar que Paul Thomas Anderson é um raro diretor que nasceu e cresceu em Los Angeles. Para ele a cidade não é apenas um lugar funcional, cujo folclore foi legado pelo imaginário coletivo, mas o próprio espaço onde a vida acontece, dentro e fora dos estúdios de cinema. Basta comparar Licorice Pizza com um filme como La La Land (2016) para perceber essa diferença. “Estrangeiro” na cidade, Damien Chazelle recria uma Los Angeles impostada para representar o movimento perpétuo por sucesso e realização. Já em Licorice Pizza a fantasia – e o movimento, o zumbido, a inquietação, a mania, a ansiedade – é a própria matéria de que Los Angeles é feita, o que torna as realizações dentro e fora da ficção indissociáveis.

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