Fonte: Por Rogério Machado – Papo de Cinemateca

A desconstrução de conceitos tidos como universais no cinema, sobretudo quando a aposta é no cômico, não raras vezes funciona muito bem. A ideia de ‘Um Divã na Tunísia’, em cartaz em algumas salas pelo país, parece simples mas à medida em que a projeção avança, vai crescendo e se estabelecendo, – através da famosa jornada da heroína-, como uma trama multifacetada, que pulveriza temas diversos que cabem em qualquer etnia ou povo. Aqui temos um mix de assuntos que vão desde o machismo estrutural, presente em diversas comunidades pelo mundo, até o velho preconceito e a desvalorização com algumas profissões, tidas por alguns como dispensáveis.

Em ‘Um Divã na Tunísia’ conheceremos Selma (Golshifteh Farahani), uma jovem que após dez anos morando em Paris, volta para Túnis, na Tunísia. Em casa, ela logo se vê envolvida em problemas com seus familiares, decidindo abrir um consultório de psicoterapia. Enquanto Selma tenta se acomodar, se depara com complicações crescentes que não haviam passado por sua cabeça. Não se trata apenas de encontrar pacientes interessados em se abrir e serem curados pela terapia, mas também em navegar em um imbróglio burocrático a fim de conseguir os documentos certos para poder exercer sua profissão em um lugar que não entendia muito do que se tratava seu ofício.

Fica patente o anseio da cineasta francesa Manele Labidi, (que aqui faz sua estreia em longas), em desmistificar o conceito que muitos fazem sobre a medicina que cuida das patologias ligadas ao comportamento e a mente humana. Na volta para casa, na Tunísia, depois de desistir de viver em um lugar onde todos querem estar – a Europa -, Selma quebra o paradigma da síndrome de vira latas (que nós aqui no Brasil sabemos bem o que é) e decide que sua vida será melhor em seu próprio lugar, mesmo com tudo caminhando contra. Um lugar onde ela sabia que seria mais difícil avançar, mas nem de longe imaginava todos os preconceitos que haveria de enfrentar.

Nesse percurso, o machismo e o sexismo enraizados na sociedade, assim como as várias questões burocráticas empurradas sobre seus ombros afim de dificultar seu estabelecimento no lugar, talvez por não entenderem como conversas em segredo podem ajudar pessoas a galgar melhor qualidade de vida. A incursão de Selma em seu novo desafio pessoal afeta todo círculo social em que estava inserida, não somente naqueles que se aventuravam nas sessões de terapia como também na vida daqueles que ignoravam aquele tipo de medicina.

Para alguns fica difícil entender o que não é palpável, e essa máxima é explorada com bom humor e inteligência. É preciso dizer que a narrativa deixa algumas boas oportunidades passarem para se estabelecer como unanimidade entre os apreciadores do cinema fora do eixo.

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