Baz Luhrmann não liga para as regras do bom gosto e da narrativa – ele só quer te entreter

Fonte: Caio Coletti – Omelete

Suor pinga do topete desarrumado de Austin Butler enquanto ele canta “Trouble”, em uma das cenas musicais inesquecíveis de Elvis. Registrado em gloriosa câmera lenta por Baz Luhrmann e pela diretora de fotografia Mandy Walker, ele se atira na direção do público, o rosto a centímetros da plateia enquanto declama que “não aceita ordens de nenhum tipo de homem”. Elvis quer, acima de qualquer coisa, te fazer entender a euforia que Elvis Presley provocava ao vivo, o coquetel irresistível de rebeldia, ritmo e carisma que mexia com uma parte visceral do público.

Até os detratores do filme de Luhrmann, que (como de praxe para o cineasta) são e serão muitos, precisarão admitir que ele faz um trabalho brilhante nesse sentido. Elvis postula corretamente que essa magia particular do seu biografado era parte mística inexplicável, parte apelo atemporal, parte apropriação cultural, parte ser o artista certo na hora certa e no lugar certo. Há algo quase cômico na forma como Luhrmann mostra a reação do público a algumas das primeiras apresentações de Elvis, mas o filme também reconhece os fatores históricos e artísticos dessa ascensão.

Do seu jeito caótico, o script assinado por Luhrmann ao lado de dois colaboradores de longa data (Craig Pearce e Sam Bromell) e um novo (Jeremy Doner, de The Killing) se desdobra bem para retratar as facetas mais complexas de Elvis. A relação dele com a música negra de sua época, e a relativa injustiça de sua imortalização no panteão do rock n’ roll acima dos originadores das técnicas que ele usava, são parte tão integral da história do longa quanto a dimensão política e moral de sua ascensão à fama. Elvis como “branqueamento” do rock, e Elvis como símbolo de transformação moral em momentos de virada importantes nos EUA do século XX.

Tudo isso, no entanto, é embrulhado em um pacote cintilante de espetáculo teatral, modelado tanto na decadência opulenta dos shows de magia e música de Las Vegas quanto na tragédia grega – será que essas duas coisas estão tão distantes assim, afinal? O Elvis de Luhrmann é povoado de figuras grotescas, a começar pelo Coronel Tom Parker (Tom Hanks, apropriadamente caricaturesco), empresário maquiavélico do rei do rock n’ roll. Ele serve como um comentador desonesto da história, de certa forma originador e justificador do verniz de fantasia que o filme coloca sobre a vida do seu biografado.

Elvis não está realmente interessado em Elvis Presley, o homem, embora dê a ele a prerrogativa de qualidades tremendamente humanas dentro do contexto melodramático do filme. Seu luto pela mãe, a generosidade que pautava suas relações pessoais, a admiração genuína que ele sentia por artistas com a coragem de se expressar, a relação visceral com a música (do jazz ao gospel), datada de seus primeiros contatos com ela na infância… Tudo está aqui, reconhecido e estilizado no ritmo inconfundível de Luhrmann, mas essa fundação humana serve apenas para apoiar uma exploração que é muito mais sobre Elvis Presley, o mito, o ícone, o símbolo – e ainda bem que é.

É verdade, é claro, que Elvis foi um homem. Tantas biografias, no entanto, se perdem no caminho de tentar decifrar algo intrinsecamente indecifrável: as idas e vindas, os cantos mais escuros e complicados, as partes mais íntimas e privadas da vida de uma pessoa de verdade. Luhrmann, até por sua natureza como artista, foge dessa armadilha quando cria, ao invés disso, uma ode audiovisual a Elvis, uma jornada biográfica contada em linguagem pop, e que fala sobre cultura pop, cuja relação com a realidade é meramente incidental, quando ela existe.

Em entrevistas, o diretor tem evitado se referir a Elvis como cinebiografia: ao invés disso, tem dito que este é um filme de super-herói, uma colocação não só astuta do ponto de vista mercadológico como também fiel ao tom mítico do longa. É inclusive por isso que não incomoda tanto a performance de Austin Butler ser tão calcada na imitação – da voz aos trejeitos de palco, ele cria um simulacro de Elvis Presley perfeito para o filme em que está colocado, e pelo qual é impossível não se ver hipnotizado. Enquanto isso, a sua expressão da honestidade ferrenha do personagem, do seu inflexível idealismo, tem mais em comum com o Christian de Moulin Rouge! do que com qualquer pessoa real.

O ponto é que Elvis, como de costume para as obras de Luhrmann, só funciona realmente se aceito dentro de sua própria lógica. O melhor jeito de aproveitá-lo é imaculado por preocupações morais sobre a integridade de cinebiografias, por regras arbitrárias de bom gosto estético… e, principalmente, pelo nosso apego insistente a uma ideia rígida de cinema e narrativa “de qualidade”. Sob os parâmetros de quem não se desprende de nada disso, alguns momentos de Elvis mal poderão ser considerados cinema, em sua abordagem distorcida e caótica da linguagem dessa mídia.

Acontece que, sob o olhar de quem reconhece entretenimento e arte pop como propósitos por si mesmos, ele é certamente um belo espetáculo. Se você me perguntar, o maior ponto que o filme tem em comum com o verdadeiro Elvis Presley é esse: no fim das contas, render-se aos prazeres que ele oferece é muito melhor do que tentar entendê-lo a partir de um molde no qual ele não tem vontade nenhuma de caber.

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