Quem diria que um filme iniciado com material de arquivo, de textura envelhecida em preto e branco, terminaria numa jornada adolescente de fantasia?

Fonte: Bruno Carmelo – Papo de Cinema

Em Edifício Gagarine, os diretores Fanny Liatard e Jérémy Trouilh exploram múltiplos olhares a um acontecimento real: a implosão da Cité Gagarine, prédio construído pelo Partido Comunista francês no subúrbio de Paris, em homenagem ao astronauta soviético Yuri Gagarin. Símbolo de orgulho em sua criação, o conjunto habitacional acompanhou a pauperização das periferias, transformando-se em habitação de imigrantes negros, de origem árabe e do leste Europeu. Sofreu então com o descaso das autoridades até ser abandonado e destruído. Partindo do registro documental da visita do cosmonauta ao edifício, até chegar ao estilo repleto de magia e efeitos especiais, a dupla transforma este marco histórico-social num personagem vivo. A Cité evolui de um centro de convivência entre culturas diversas a uma zona perigosa, então sucateada, invadida, e ressignificada pela mente fértil de Yuri (Alseni Bathily), adolescente que sonha em viajar ao espaço.

Ao transitarem pelo realismo e pelo cinema de gênero, os diretores fazem questão de demarcar a diferença entre ambos. Não se trata de um registro híbrido, mas de um jogo de oposições: por um lado, o cotidiano do garoto abandonado pela mãe transparece com naturalismo as dificuldades financeiras e a carência afetiva. Nestes instantes, a câmera na mão acompanha os passeios de Yuri, Houssam (Jamil McCraven) e Diana (Lyna Khoudri) pelos prédios, brincando com os vizinhos ou almoçando na casa de conhecidos. Por outro lado, quando mergulha na subjetividade do protagonista, a câmera efetua movimentos pendulares pelo espaço (como se flutuasse em gravidade zero), ao passo que os cômodos se tingem de vermelho fluorescente, a cadela Laika aparece em sonhos e o prédio se ilumina como em Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977). O imaginário espacial se converte em ideal de fuga: diante das perspectivas limitadas, o talentoso garoto concebe uma cápsula espacial apropriada à aventura celeste. Nunca se sabe ao certo de onde ele retira tamanhos conhecimentos de física e matemática, visto que não estuda. Tampouco conhecemos suas fontes de renda, longe da mãe e sem trabalho fixo. Os autores sugerem os mínimos elementos necessários à compreensão socioeconômica daquele contexto, evitando o espetáculo da miséria.

Em diversos momentos, o resultado se assemelha ao drama indie norte-americano ao invés das produções de cunho social tipicamente francesas. Conforme adentra a difícil descoberta da vida adulta, na amizade com Hassoum (limitado ao sidekick sem real importância na trama) e no romance com Diana (cuja experiência mecânica e familiar tampouco serve à narrativa), o resultado se aproxima das obras adolescentes nos moldes de A Culpa É das Estrelas (2014). A cena com o trio deitado sobre o terraço da Cité, observando as estrelas e flertando uns com os outros, reproduz enquadramentos e situações convencionais deste subgênero. A impressão do indie é reforçada pelo fato de Yuri receber construção psicológica muito mais complexa do que aquela dos coadjuvantes. Nesta forma de cinema, é comum dedicar toda a atenção a uma figura solitária, oferecendo personagens-satélites que orbitam ao redor, existindo apenas por ele e para ele. Duas sequências aceleradas de construções científicas e da rotina no prédio, com câmeras deslizantes, fusões entre temporalidades distintas e música pop em inglês remetem aos videoclipes de bandas “descoladas”.

Apesar de passagens exageradas em tom (o despejo sob a chuva, com bebês chorando e crianças cadeirantes) e simbologias pouco originais (o traficante Dali girando como um dervixe, enquanto a câmera rodopia sobre seu eixo), resta a constatação de que, dentro da configuração do coming of age story, poucas produções atingem o nível de Edifício Gagarine. Tanto os atores mais experientes (Denis Lavant, Finnegan Oldfield) quanto os adolescentes novatos, a exemplo do protagonista, possuem um desempenho minimalista para o gênero tão afeito ao sentimentalismo. A Cité é filmada desde o olhar subjetivo à admiração via telescópio, convertendo-se em nave espacial para os devaneios do garoto (bela analogia entre implosão e propulsão). Os trabalhos de direção de som durante a rotina ruidosa do prédio, e de direção de fotografia para as analogias fantásticas são executados com discrição. O símbolo da cor azul, que representa o céu e se repete em todas as paredes, roupas e objetos importantes a Yuri pode soar excessiva, ainda que não o suficiente para desviar a atenção dos dilemas humanos. Liatard e Trouilh evitam a armadilha da conciliação forçada (sobretudo no que diz respeito à mãe), guardando o pulso firme quanto ao discurso político.

Teria sido interessante compreender a lógica das ocupações urbanas por uma ótica mais combativa: os habitantes aceitam o despejo com uma passividade contestável. O ideal da “convivência à francesa”, onde todas as origens se misturam alegremente, condensa-se nas cenas fabulares do Eclipse Solar, além da voz esperançosa de uma criança ao final. Mesmo assim, as incursões de otimismo jamais apagam a sensação de uma obra melancólica, ou seja, de um amadurecimento pautado pela nostalgia dos ideais comunistas ao invés das euforias e desesperos típicos às histórias adolescentes. Os cineastas combinam a ousadia do encontro entre gêneros com os clichês da passagem à vida adulta, em resultado positivo. Eles ocupam o importante terreno do cinema popular de qualidade, oferecendo uma obra tão acessível ao público amplo (vide os desejos sem sexo, as lutas sem sangue) quanto refinada em termos de produção. Poucas obras teen presentes na televisão e nas plataformas de streaming, de sucesso considerável, atingem a qualidade desta mistura entre drama, romance, comédia e ficção científica.

Filme visto online no Festival Varilux de Cinema Francês, em novembro de 2020.

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