Fonte: Bruno Carmelo – Papo de Cinema

O principal receio diante das adaptações literárias de romances famosos diz respeito ao caráter reverencial. Uma quantidade expressiva de obras se vê na obrigação de reproduzir o máximo de passagens, personagens e frases do livro, como se um bom filme fosse aquele que absorvesse a maior porcentagem do material de origem. Como resultado, surgem obras inchadas, com reviravoltas velozes demais e personagens em excesso, na tentativa idealizada de acomodar todas as passagens necessárias. Ora, o primeiro mérito de Ilusões Perdidas (2021) se encontra em sua louvável disposição à infidelidade: o longa-metragem ignora partes significativas do texto de Balzac, funde personagens, dispensa outros, cria alguns. Aspectos da personalidade do herói Lucien de Rubempré (Benjamin Voisin) são alterados de modo a se encaixar numa perspectiva contemporânea. Esse seria um verdadeiro trabalho de adaptação, no sentido estrito do termo, contrariamente a tantas ilustrações de livros, servis e pouco criativas. O drama histórico mergulha no século XIX para extrair reflexões pertinentes ao século XXI, dentro de uma forma de cinema que jamais se confundiria com um filme antigo. As ferramentas digitais são utilizadas com prazer para evocar um imaginário passado, ao invés de tentar reproduzi-lo.

Além disso, o cineasta Xavier Giannoli se dedica aos tempos, contemplações e subentendidos, evitando a armadilha do “filme de ação” onde tudo é exteriorizado e explicado. Pelo contrário, os enquadramentos valorizam os olhares furtivos dos amantes numa festa, as provocações silenciosas entre rivais durante uma reunião, o olhar perdido do garoto cuja vida é arruinada pela ambição. O roteiro desenha uma galeria extensa de figuras falhas e multifacetadas, que se transformam diante dos nossos olhos. Todos possuem atividades e funções fora da relação com Lucien: a baronesa Louise de Bargeton (Cécile de France) tem o casamento fracassado e as rodas literárias a gerenciar; a marquesa de Espard (Jeanne Balibar) intervém diretamente na política local, o escritor Nathan d’Astazio (Xavier Dolan) se preocupa em publicar seus romances, e o editor Étienne Lousteau (Vincent Lacoste) dedica dias e noites a firmar acordos comerciais. O mundo nunca se interrompe para abraçar o jovem aspirante a poeta. Pelo contrário, ele é tragado por este mundo veloz e perverso, onde as pessoas consomem comida, dinheiro, arte e corpos com a mesma voracidade. O drama oferece uma construção palpável da época de prostituições reais e simbólicas, seja do corpo ou do capital.

“O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”. O princípio do bom selvagem se aplica à trajetória de Lucien, partindo da ingenuidade campestre ao mergulho na corrupção parisiense. Os sonhos de se tornar poeta são colocados de lado, e depois, abandonados, vendidos, trocados por prazeres imediatos. O escritor se converte em jornalista, e então, crítico de arte feroz, e por fim, autor de caricaturas e textos difamatórios. Propõe-se uma “descida aos infernos”, ou seja, uma entrega progressiva às engrenagens corroídas da cidade grande. Felizmente, Giannoli observa esta decadência sem moralismos: um narrador onisciente nos avisa, situado num tempo futuro, que o garoto terminará na miséria, e que esta história constitui uma tragédia. Além disso, os comentários da narração estão impregnados de um cinismo mordaz, que não poupa personagem nenhum. Os escritores ingênuos, os negociantes sem escrúpulos, as atrizes sem talento, as amantes manipuladoras são denunciados em frases potentes, tanto extraídas de Balzac quanto condensadas a partir de seus escritos. Critica-se o mundo de aparências, o império do dinheiro, a imprensa sensacionalista e propensa a valorizar histórias falsas (sim, desde 1837). Este “teatro da sociedade, onde as piores pessoas têm os melhores lugares” é processado por um olhar minucioso de analista. Aqui, a narração disseca e interpreta, ao invés de apenas descrever.

Desta maneira, o aspecto solene ou pomposo, comum à reconstrução de época, cede espaço ao caráter jocoso, excessivo e mesmo “politicamente incorreto”, para se utilizar um termo dos nossos tempos. O sexo se transforma num enlace físico sem pudores (“Mais forte!”, grita a mulher penetrada, em êxtase), a nudez se estampa de modo natural, o vocabulário chulo se mistura aos elogios, os penteados e figurinos impecáveis se combinam com outros, ridículos porque engomados demais, buscando ostentar uma riqueza de fachada. Briga-se com vigor, chora-se sem meios-termos. Numa sequência de prazer, Lucien literalmente flutua sobre uma mesa de comida, dinheiro e contratos assinados. Esta representação do “esplendor francês”, como foi conhecida a época, reforça o caráter de ostentação e o absurdo de sua existência numa sociedade desigual. Existe um caráter progressista neste discurso, razão pela qual inúmeros políticos de esquerda recuperam o texto de Balzac para analisar a sociedade atual. A imprensa, em particular, se converte num circo de arranjos, presentes, subornos e chantagens, onde nenhum crítico ou jornalista escreve o que pensa de fato, apenas aquilo que convém a si próprio e aos amigos. Nossa década de influenciadores, escritores caça-cliques e dedicados às fake news dialoga diretamente com a Paris egocêntrica do escritor.

Em paralelo, o grande elenco encontra um meio-termo saudável entre a rigidez dos costumes antigos e o despojamento de um filme contemporâneo. Benjamin Voisin amadurece e perece no espaço de pouco mais de duas horas, tendo seu corpo vestido e desvestido; o cabelo arrumado e bagunçado; o vestuário incrementado e empobrecido. Ele domina os diálogos com uma alegria juvenil que representa com eficácia o herói derrotado por sua utopia. Cécile de France comove com uma série de olhares silenciosos e variados, em demonstração impressionante de habilidade cênica — nenhuma expressão se equivale à anterior. Jeanne Balibar se delicia no registro de sedução que lhe é particular, e Xavier Dolan comprova ser um ótimo ator quando dirigido por outra pessoa além de si mesmo. Ilusões Perdidas possui belos enquadramentos e jogos de luzes, que jamais chamam atenção excessiva à equipe técnica ou às proezas do diretor. Giannoli já havia efetuado um trabalho semelhante no espetacular Marguerite (2015), e volta a retratar personagens histriônicos e delirantes sem que sua própria obra se contamine pelo espetáculo de vaidades. Existe uma saudável distância entre o ponto de vista do diretor e aquele de seus personagens. O cineasta os observa com uma mistura de afeto e senso crítico: teme-se que os personagens sofram com seus erros, porém sem paternalismo nem condescendência. Os bons precisam ser sacrificados, enquanto os mais perversos triunfarão. O final feliz nunca foi uma possibilidade.

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