Fonte: Bruno Carmelo – Papo de Cinema

Em termos de gênero, Meu Fim. Seu Começo (2019) se inscreve na tragédia. O filme parte da morte brutal durante um assalto, interrompendo a história de amor entre dois jovens, para chegar a uma criança com leucemia, outro casal se separando e um professor universitário com graves crises de ansiedade. Haveria margem para muita lágrima e sofrimento caso Mariko Minoguchi o desejasse. Nas mãos de outro diretor, este material se prestaria a uma novela, ou um melodrama de expiação de culpas e amores superando obstáculos. No entanto, o filme alemão surpreende pela abordagem contida dos dilemas humanos. Ao perder o namorado, Nora (Saskia Rosendahl) reage de maneira embrutecida, incapaz de fazer o luto. Ao invés do choro, ela admira uma pequena ferida shakespeariana no dedo, que nunca se cicatriza, além dos sapatos sangrentos da vítima, devolvidos pelos policiais. Na caixa eletrônica, grava uma mensagem do tipo: “Se estiver procurando o Aron, ele morreu e não pode responder”. Os sentimentos adquirem um contorno violento.

Esta abordagem se ampara na física quântica e no estudo das probabilidades. Aron era professor de física, desenvolvendo teses a respeito do déjà vu e do fato que cada ser humano seria afetado tanto pelo passado quanto pelo presente. “Mas por que não nos lembramos do futuro?”, provoca os alunos durante uma palestra. Em resposta à namorada, defensora da ideia de que “Nada é eterno”, ele replica: “Tudo é eterno”. O próprio título faz referência ao fato que Nora e Aron constituem o mesmo nome, observado por lados diferentes, o que se expande aos nomes em forma de palíndromo: Ava, Natan. Neste intricado roteiro, a diretora privilegia as relações de causa e consequência, ou ainda o modo como nossos pequenos gestos provocam revoluções nas vidas alheias (o efeito Borboleta), a possibilidade de vida e morte simultâneas (em referência ao experimento do gato de Schödinger) e a aproximação entre as noções de acaso e destino. Neste filme, quanto mais aleatórios são os encontros, mais se parecem destinados a acontecer assim. A história ressignifica pequenos gestos ao invés de insistir na obviedade dos sentimentos (a dor de Nora, a tristeza de Natan diante da filha doente).

O drama dedica tempo considerável a tornar estes relacionamentos verossímeis. Ao contrário da idealização romântica típica do cinema industrial (os casais que fazem amor rindo, em câmera lenta, ou fazem cócegas um no outro sob um lençol branco antes de acordarem no dia seguinte sobre uma cama de cetim), o amor em Meu Fim. Sem Começo soa plausível. Minoguchi explora as piadas internas entre casais e os gestos de afeto cotidianos – o dedo passando no cabelo, a naturalidade com que a namorada acolhe os espasmos do homem de sua vida (claramente, Aron já sofria com ataques antes). O roteiro permite que Natan passe bom tempo com a filha pequena, sendo um pai carinhoso e um pouco distante simultaneamente. Os atores contribuem bastante a esta tarefa: Saskia Rosendahl e Julius Feldmeier apresentam uma composição despojada, contrária à exemplaridade. Em outras palavras, eles se tornam sujeitos comuns cuja tragédia pessoal permanece invisível para o mundo ao redor. Edin Hasanovic está excelente na tarefa de ser tão bruto quanto doce, numa mistura de impulsividade e boa intenção. A cena do karaokê com uma voz banal (nem bonita demais, nem vergonhosamente desafinada) diz muito sobre o trato de Minoguchi no tom de suas cenas.

O roteiro e a montagem reforçam este trabalho ao eliminarem a sensação de urgência habitual em dramas sobre acidentes letais e crianças morrendo. Ainda que a garotinha aguarde um doador de medula óssea, e que a namorada em luto tenha pendências relacionadas ao enterro, o ritmo se mantém contemplativo. A história permite que o encontro entre Nora e Natan ocorra depois do acidente (ele só aparece quando ela enfrenta a dor da perda), durante o acidente (ambos trabalham no mesmo supermercado) e antes do acidente (na verdade, já haviam se cruzado). Observando em retrospecto, pode-se sustentar a ideia de que estes acontecimentos eram inevitáveis, até previsíveis, no entanto, são conduzidos sem o senso de espetáculo ou de grande astúcia. A cineasta coloca em prática, por meio do ritmo e da narrativa, as teses sobre física desenvolvidas pelos personagens. Em consequência, as interações românticas se aproximam do realismo fantástico e da ficção científica, enquanto preservam a simplicidade dos dramas ordinários. A física perpassa silenciosamente a vida de todos os personagens, quer conheçam as teorias quânticas ou não.

O resultado também surpreende pela condução elegante da direção de fotografia. Julian Krubasik trabalha com um scope discreto, luzes frias e pequenos leves movimentos de câmera nos espaços dos apartamentos, bares e universidades. Com precisão cirúrgica, contribui a atenuar a carga sentimental enquanto evita chamar atenção excessiva ao dispositivo cinematográfico. A diretora encontra uma maneira verossímil de fazer com que o término constitua tanto um encerramento ao dilema dos protagonistas quanto um recomeço, além de um retorno ao princípio do filme. Sem malabarismos vaidosos, Minoguchi propõe uma obra de estreia competente, capaz de amparar o rico material humano em ideias que superam a esfera dos valores e da moral. O naturalismo se torna uma conquista da mise en scène face às inúmeras armadilhas do roteiro (vide as fortes escolhas para o final). Ao fim, a cineasta encontra um meio-termo interessante entre o cinema “de arte”, voltado aos grandes festivais, e o cinema popular, acessível ao público médio. Poucas obras se aventuram com tamanha facilidade pelo espaço unindo estas duas pontas da comunicação artística.

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