Fonte: Marcelo Müller – Papo de Cinema

É revigorante assistir a filmes empenhados em expandir os limites da linguagem, dispostos a subverter determinadas lógicas do cinema narrativo, ou seja, do mais comercialmente aceito porque ocupado “pura e simplesmente” em contar uma história. Entretanto, essa busca desenfreada por inovações, inquietudes e rupturas pode nos turvar a percepção para boas (até mesmo grandes) obras que se valem de componentes e estruturas clássicos a fim de expressar-se. No segundo grupo está O Charlatão, novo trabalho da veterana cineasta polonesa Agnieszka Holland, conhecida tanto por sua vasta carreira nas telonas quanto pelas incursões televisivas nos Estados Unidos, comandando episódios de séries aclamadas, como The Wire (2002-2008), House of Cards (2013-2018) e The Killing (2011-2014). Aqui ela faz a cinebiografia de contornos bastante convencionais de Jan Mikolásek, personalidade tcheca que gerava controvérsia em virtude de sua atividade assistencial, baseada em oferecer tratamento alternativos após diagnósticos por meio de simples amostras de urina. De início, parece que teremos apenas a perspectiva do injustiçado, filão para lá de batido.

Interpretado por Ivan Trojan na maturidade e Josef Trojan na juventude – os atores são pai e filho –, Jan Mikolásek é compreendido desde os passos inaugurais como alguém ambíguo. Caridoso ao ponto de custear a viagem do paciente mirim ao litoral, indicada à remissão de precoces dores reumáticas, ele sustenta um semblante duro e demonstra teimosia ao rechaçar os apelos dos funcionários para exilar-se e fugir das perseguições do governo empossado após o término da Segunda Guerra Mundial. Para compreendermos melhor essa trajetória intrincada, Agnieszka Holland lança mão de flashbacks esclarecedores tão logo o protagonista e seu principal assistente, Frantisek Palko (Juraj Loj), sejam presos sob as acusações de charlatanismo e homicídio. Esses vislumbres de um passado a nós ainda mais longínquo revelam as memórias de guerra e as dificuldades de encaixar-se na família de jardineiros assim que foi possível retornar para casa. E a realizadora contrapõe visualmente tais instantes, criando uma distinção que ajuda na modulação dramática.

O presente tem uma fotografia cinza-azulada, marcada pela prevalência das composições com detalhes apontando às degradações, à ação não auspiciosa do tempo. Já o antes, especialmente o pós-guerra, tem cores vivas, vide os campos verdejantes constantes nas transições. Há também uma fluidez na movimentação interna que denota um tom melancólico e luminar de saudosismo. O Charlatão equilibra bem as dimensões temporalmente diferentes, apresentando-as alternadamente, ora se detendo demoradamente nos interrogatórios do encarcerado, ora estendendo o contato com os anos em que Jan e Frantisek se aproximaram até formar uma dupla praticamente inseparável. Ao debruçar-se sobre o relacionamento homossexual deles, Agnieszka Holland amplia seu interesse pela complexidade desses personagens, simultaneamente ressaltando os protocolos torpes de um Estado agressivo que enxerga o amor carnal entre homens como algo passível de ser punido social e judicialmente. Desse jeito, o filme mira as esferas privada e pública, as entrelaçando.

Agnieszka Holland lança mão sistematicamente de aparentes contradições – que se revelam complementariedades insuspeitas – como indícios do que escapa à superfície. Jan diz-se portador de um dom divino, mas precisa adquirir conhecimentos de certo modo racionais (científicos?) para fazer as análises. Não se diz doutor, aliás, corrige quando assim se dirigem a ele. Bondoso, mas capaz de atos reprováveis, e alguns ao menos questionáveis, deixa de ser somente o injustiçado por incautos e ganha matizes. Além da considerável gama de nuances substanciando as entrelinhas, num filme sustentado por um esqueleto recorrente nas cinebiografias, a cineasta conta com o desempenho brilhante do ator Ivan Trojan e o adicional expressivo oportunizado pela intensidade de Frantisek Palko. Em linhas gerais, o maior dos méritos de O Charlatão é alcançar uma amplitude significativa a partir de tantos componentes da vida de alguém, evitando recortar este ou aquele aspecto radicalmente, e ainda proporcionar o espectador um trânsito por sutilezas e não ditos.

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